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01 fev 2021

A parábola do joanete nestas Presidenciais

Edited on 23 Jan. 2023

O joanete (hallux valgusdistorce o alinhamento do “dedo grande” do pé com uma protuberância óssea que tende a inflamar e a doer. Muitos portugueses, incluindo os presidentes de partidos políticos, sofrem com joanetes.

 A pressão do “dedo grande” do pé tende a deformar a articulação do segundo dedo, e assim por diante. Imaginemos um joanete inflamado à esquerda. Para lidar com a dor, o governo corporal compensa menos contacto à esquerda com mais contacto à direita, e ganha esse hábito. Mas a dor pode aliviar com um separador de correcção (e.g., uma candidatura presidencial) entre o “dedo grande” e o segundo dedo. Quando a dor é aliviada e o contacto habitual do pé esquerdo regressa, os movimentos à direita aumentam de amplitude.

Na noite das Presidenciais 2021, as elocuções dos presidentes dos partidos políticos com maior eleitorado, Carlos César e Rui Rio, foram um regabofe demagógico de podologia. Aludindo ao último, o seu discurso simples tomou o distrito de Setúbal (cujo eleitorado vota tradicionalmente à esquerda) como exemplo para nos explicar que a ascensão da extrema direita radical se faz à custa dos votos – pasme-se – do eleitorado de esquerda. Pois é, nunca tínhamos pensado nisso! E que força operacional tem este discurso na prevenção da “tal” ameaça antidemocrática? Como o joanete, agrava-se com o tempo, deformando o pé que sustenta o seu eleitorado.

Primeiro dedo, Rio orbitou em torno dessa extrapolação irracional para justificar que a influência política da aliança regional do PSD com “o tal” ficou circunscrita à casuística eleitoral Açoriana. Segundo, e mais grave, Rio “normalizou” o share de 12% de Ventura perante o seu próprio eleitorado, enquanto sacudia para a esquerda a água do capote. Terceiro, Rio não examinou a causalidade do fenómeno eleitoral em termos demográficos. Ele esquece uma franja de sociais-democratas descontentes que foram “empurrados” para a outra margem pela carnificina imobiliária. Para esses, o seu discurso é tão operante como meditar na Feira da Ladra. Quarto dedo, ao saracotear-se entre “novas” alianças, Rio menosprezou e enfraqueceu a representatividade dos tradicionais aliados políticos do PSD, outorgando ao Chega força parlamentar. Noutras palavras, Rio tornou o PSD refém do “tal” partido em coligações futuras – um pesadelo vindouro. Finalmente, em êxtase eleitoralista, tornou a esquerda Portuguesa liliputiana. Qual Grindelwald, Rio enfeitiçou os votos apurados nas Presidenciais de 2016 no distrito de Setúbal e criou uma estatística que só ele entende. Recorde-se que à época Marcelo Rebelo de Sousa (37,89%) foi o candidato mais votado, e os votos “dispersos” dos candidatos de esquerda atingiram mais de 50%. No passado domingo, Marcelo reforçou a sua posição com quase 20% de votos, enquanto a esquerda “desapareceu” para 28,65%. Parece claro que a esquerda de Setúbal quis assegurar o Presidente em funções e não “saltou” ideologicamente para o parceiro de coligações do PSD. Como se trata isto? É idiopático, ande e durma para o lado em que se julgue menos vulnerável.

Opinião de Amadeu Quelhas Martins, Professor Auxiliar na Universidade Europeia
O autor não escreve segundo o Novo Acordo Ortográfico