Portal Estudante
3 Agosto 2020

Menos não é sempre mais

Menos não é sempre mais

Já todos nos cruzámos com a velha máxima less is more, é seguro afirmar. É daquele tipo de aforismo que o tempo cristalizou em património retórico universal, e que uma boa esgrima de ideias parece não poder dispensar.

Confesso, contudo, que este, em particular, me inquieta bastante. Reconheço-lhe as qualidades sintáxicas e, mais interessante, a capacidade de cumprir, no próprio enunciado, a tese que propõe — trata-se, afinal, de uma defesa genérica da ideia de minimalismo expressa, muito adequadamente, em apenas três curtos vocábulos. Porém, não obstante a magnífica afinação formal, o tom categórico com que vulgarmente se afirma que menos é mais — a não menos minimal versão portuguesa do mote — alude a uma pretensa universalidade do pressuposto. E essa universalidade é, quanto a mim, uma ilusão mascarada de sabedoria secular. Não que menos não possa ser mais. Pode, claro. E, em muitos casos, será. Mas elevar tal premissa à condição de regra absoluta, válida sempre que evocada, transforma-a num argumento superficial — além de preguiçoso —, altamente castrador para todas as atividades que se debrucem sobre o espírito humano. Mas vamos por partes.

A expressão less is more tem origem presumível num poema do século XIX, da autoria do inglês Robert Browning, mas foi o arquitecto alemão Ludwig Mies van der Rohe quem, já no século XX, a tornou verdadeiramente popular. Para quem está familiarizado com a retórica da arquitectura modernista, é evidente a perfeição de casamento entre o verso de Browning e o estilo racional de Mies van der Rohe, marcado pela depuração da forma e pela rejeição do ornamento supérfluo. Porém, muito para lá da afirmação de uma filosofia pessoal particular, a máxima less is more acabaria por assumir um papel de síntese informal de um amplo conjunto de movimentos estéticos não irrelevante — das artes plásticas à música, da arquitectura ao design —, que, na procura de uma simplificação extremada, acabaria por substituir, deliberadamente, a construção emocional pela materialidade funcional.

Não surpreende que, num século de afirmação industrial — um século que, recorde-se, viu desenvolver os princípios da administração científica, de Fredrick Taylor, e a linha de montagem, de Henry Ford —, a objectivação da função, transcrita como pureza da forma, tenha ganho ímpeto tão vincado e tão alargado. Até porque, de um modo mais profundo, esse mesmo ímpeto materializava, como nenhum antes dele, um dos grandes mitos que o ser humano construiu à sua volta: o de que a emoção é coisa do passado animal, e a razão, essa faculdade excepcional, o triunfo da nossa espécie. Less is more era, pois, o guia perfeito para um mundo que se pensava hiper-racional.

Ora, hoje, em pleno século XXI, temos outro entendimento da substância humana, convenientemente fundamentado por áreas como a psicologia e a neurociência. E esse entendimento começa, precisamente, por nos assegurar que, sem emoção, a razão não é a virtude optimizada que se julgava. Valerá, então, a pena continuar a insistir, levianamente, que menos é mais?

Para lá do mito da racionalidade

Como se percebe, sou da opinião que, mais do que um argumento de inteligência contemporânea, o mote less is more é uma viagem frívola a um passado pouco esclarecido em matéria de função emocional. A defesa da simplicidade pela simplicidade nele implícita não é mais do que um exercício formal estéril, que ignora todas as camadas de significado que o ser humano procura ao experimentar o mundo. Dizem-nos as ciências humanas que consciente ou inconscientemente, todos ansiamos por mais do que uma vida sequenciada em transacções funcionais. Procuramos histórias e narrativas. Queremos ser envolvidos, desafiados, estimulados. O mistério é importante. A interpretação é importante. Tal como revelam Vilayanur Ramachandran e William Hirstein — neurocientista e filósofo, respectivamente —, a resolução de problemas perceptuais, o decifrar de ambiguidades, é uma das fontes de maior prazer que o nosso cérebro retira da fruição da arte. Ora, nunca é demais lembrar que esse cérebro curioso não fica retido na plateia do teatro, nem na sala do museu. Acompanha-nos, pelo contrário, ao longo da marcha a que chamamos vida. Do supermercado à rede social, da rotina laboral aos rituais familiares. Advogar pela simplicidade funcional como um fim em si mesmo é trocar, com paternalismo sobranceiro, a estimulante natureza humana — lugar do sonho, da magia, da imaginação, mas também da subjectividade, da ambiguidade, da intangibilidade — por uma versão mais pobre, não mais evoluída.

Por fim, mesmo reconhecendo as suas claras insuficiências enquanto prescritora de um ideal humano absoluto, é difícil ignorar o quanto a máxima de Mies van der Rohe, já longe do seu perímetro filosófico original, responde ao espírito intelectual do nosso tempo. E é talvez aí que se sustém a minha inquietação. Não desconsiderando os privilégios evidentes do presente, a aceleração contínua que o empurra compulsivamente para a frente é também fértil produtora de mediocridade, como alertou primeiro Goethe. Ora, neste ritmo frenético, de superficialidade perpetuada e certeza passageira, a apropriação do verso de Browning — ou, talvez, reapropriação seja mais indicado — oferece um argumento airoso, dissimulado de lucidez intelectual, mas profundamente ignorante do desiderato humano. O risco, esse, reafirma-se: do minimalismo formal à pobreza emocional, o passo é curto.

Artigo escrito pelo professor João Campos. O artigo original encontra-se disponível para leitura aqui.


Voltar

Siga-nos

CAMPUS DA QUINTA
DO BOM NOME

Estrada da Correia, nº53.
1500-210 Lisboa

CAMPUS DE SANTOS

Avenida D. Carlos I, nº4
1200-649 Lisboa – Portugal

CAMPUS DA LISPOLIS

Rua Laura Ayres, nº4
1600-510 Lisboa – Portugal

Contactos
Política de Cookies Universidade Europeia

O site da Universidade Europeia utiliza cookies próprios e de terceiros para melhorar o respetivo desempenho e a experiência do utilizador. Alguns cookies são obrigatórios para ter acesso aos conteúdos e serviços, outros são-lhe apresentados como opção e contribuem decisivamente para lhe oferecer uma experiência de qualidade superior que corresponde aos seus interesses.

Clique em ACEITAR E PROSSEGUIRpara receber todos os cookies e aceder aos conteúdos. Se pretender escolher, em concreto, os tipos de cookies, clique em OPÇÕES DE COOKIES.


Politica de Privacidade
Política de Cookies Universidade Europeia

Decida, já, se pretende prosseguir de imediato para o site, aceitando os cookies utilizados nas nossas plataformas digitais. Clique no botão seguinte (ACEITAR E PROSSEGUIR).



Ou, em alternativa, se pretender dedicar mais tempo a esta operação, escolha as suas preferências! Tem todo o tempo do mundo.

Funcionalidades Básicas
Funcionalidades Avançadas (escolha uma ou todas)

Faça as suas escolhas dos vários tipos de cookies e clique em

SUBMETER PREFERÊNCIAS

Politica de Privacidade