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Perturbações do comportamento alimentar: sinais, avaliação e intervenção psicológica

Ciências da Saúde

15 de Outubro de 2026
Uma rapariga sentada com um prato de comida

As perturbações do comportamento alimentar (PCA) são condições de saúde mental complexas, nas quais fatores psicológicos, comportamentais, biológicos, familiares e socioculturais podem interagir. A sua avaliação e intervenção exigem, por isso, uma compreensão que vá além do comportamento alimentar ou do peso corporal.

Para a Psicologia, estas perturbações colocam desafios específicos ao nível da identificação precoce, da avaliação psicológica, da formulação do caso, da gestão do risco e da intervenção baseada na evidência.

Dados epidemiológicos mostram também a relevância crescente deste problema. Uma revisão sistemática publicada no American Journal of Clinical Nutrition identificou um aumento da prevalência das perturbações alimentares entre os períodos analisados.

Este artigo explica o que são as perturbações do comportamento alimentar, os principais quadros clínicos e sinais de alerta e os fatores envolvidos no seu desenvolvimento e manutenção. Analisa também a avaliação psicológica, a formulação do caso, as principais intervenções baseadas na evidência, a gestão do risco e o papel do psicólogo numa equipa multidisciplinar.

O que são as perturbações do comportamento alimentar?

As PCA são condições clínicas complexas que envolvem uma relação perturbada com a alimentação, o peso e a imagem corporal, com impacto significativo na saúde física, no bem-estar psicológico e na qualidade de vida.

Não são passageiras nem superficiais, envolvendo padrões comportamentais, cognitivos e emocionais que tendem a persistir e a agravar-se sem intervenção adequada.

Na avaliação psicológica, é importante evitar pressupostos baseados no género, idade, peso ou aparência física. Alguns deles podem contribuir para atrasos na identificação e no encaminhamento das PCA:

  • Género: as PCA podem ocorrer em pessoas de todos os géneros, embora a prevalência e a apresentação clínica possam variar.
  • Peso e aparência: uma pessoa pode apresentar uma PCA sem ter baixo peso ou alterações corporais facilmente observáveis.
  • Idade: embora muitas PCA se iniciem durante a adolescência ou no início da idade adulta, podem surgir noutras fases da vida.
  • Voluntariedade: os comportamentos associados a uma PCA não devem ser interpretados simplesmente como uma escolha da pessoa.

A avaliação deve ser sempre realizada por profissionais qualificados, capazes de considerar o conjunto de sinais, comportamentos e contextos específicos de cada pessoa.

Quais são os principais tipos de perturbações do comportamento alimentar?

O manual atualmente em vigor da APA é o DSM-5-TR, e a OMS disponibiliza atualmente os critérios clínicos da ICD-11/CDDR. A ICD-11 entrou em vigor para reporting em 2022 e a OMS publicou em 2024 as Clinical Descriptions and Diagnostic Requirements para perturbações mentais.

Os principais sistemas internacionais de classificação, distinguem diferentes perturbações da alimentação e da ingestão alimentar. Entre os quadros mais relevantes encontram-se:

Anorexia nervosa (AN)

Caracteriza-se pela restrição persistente da ingestão alimentar, o que leva a um peso significativamente baixo para a idade, o sexo e a trajetória de desenvolvimento. Associa-se a um medo intenso de ganhar peso e a uma perturbação no modo como a pessoa experiencia o próprio corpo.

A anorexia nervosa é reconhecida como uma das perturbações mentais com maior taxa de mortalidade: de acordo com uma meta-análise publicada no International Journal of Eating Disorders, o risco de morte em pessoas com anorexia nervosa é cerca de cinco vezes superior ao da população em geral, sendo as causas cardíacas e o suicídio responsáveis por cerca de 19% e 21% dos óbitos, respetivamente.

Bulimia nervosa (BN)

Define-se por episódios recorrentes de ingestão alimentar compulsiva seguidos de comportamentos compensatórios inadequados, como o vómito autoinduzido, o uso de laxantes ou diuréticos, o jejum ou o exercício físico excessivo.

Perturbação de ingestão alimentar compulsiva (PIAC)

Também conhecida internacionalmente como Binge Eating Disorder (BED), é atualmente é uma das perturbações alimentares mais prevalentes a nível mundial

Envolve episódios recorrentes de ingestão compulsiva com perda de controlo, mas sem os comportamentos compensatórios que caracterizam a bulimia nervosa.

Perturbação de ingestão alimentar evitante/restritiva (ARFID)

A ARFID caracteriza-se pela restrição ou evitação alimentar, marcada por falta de interesse pela comida, aversão sensorial ou medo de consequências aversivas (como engasgar ou vomitar), sem que tal seja motivado por preocupações com o peso ou a forma corporal, distinguindo-se assim claramente da anorexia nervosa.

Além destes quatro quadros, existem outras apresentações clínicas, como a pica e a perturbação de ruminação, bem como situações que não preenchem todos os critérios de uma categoria diagnóstica específica, mas que exigem igualmente avaliação e acompanhamento profissional.

Como é feito o diagnóstico de uma perturbação do comportamento alimentar?

O diagnóstico de uma perturbação do comportamento alimentar não resulta da identificação isolada de um comportamento, de um determinado peso corporal ou da pontuação obtida num questionário.

A avaliação clínica deve integrar diferentes fontes de informação, incluindo os padrões alimentares, comportamentos compensatórios, relação com o peso e a imagem corporal, funcionamento emocional e social, evolução dos sintomas, comorbilidades e possíveis consequências físicas.

Instrumentos de rastreio ou questionários podem apoiar a recolha de informação, mas não substituem uma avaliação clínica abrangente. As recomendações do National Institute for Health and Care Excellence (NICE) salientam, por exemplo, que ferramentas de rastreio como o SCOFF (questionário breve de rastreio utilizado para identificar possíveis sinais de perturbações do comportamento alimentar) não devem ser utilizadas isoladamente para determinar se existe ou não uma perturbação alimentar.

A avaliação deve ainda considerar hipóteses alternativas e condições coexistentes, incluindo ansiedade, depressão, perturbação obsessivo-compulsiva, comportamentos autolesivos, consumo de substâncias e problemas de saúde física.

A intervenção em perturbações alimentares exige formação adequada, atualização científica e supervisão clínica, particularmente devido à complexidade dos casos e à possibilidade de risco psicológico e físico significativo.

Quais são os principais sinais de uma perturbação do comportamento alimentar?

Os sinais de uma PCA podem manifestar-se em diferentes dimensões. Nenhum sinal isolado confirma um diagnóstico, e a aparência ou o peso de uma pessoa não são critérios suficientes para determinar a presença ou ausência de uma perturbação alimentar.

Sinais comportamentais

  • Alterações marcadas nas rotinas alimentares (saltar refeições sistematicamente, restringir grupos de alimentos, adotar rituais rígidos em torno da comida).
  • Evitação de situações que envolvam comer em grupo ou em público.
  • Comportamentos compensatórios, como exercício físico compulsivo ou privação alimentar antes ou após determinadas refeições.
  • Mudanças significativas nos padrões de compra, preparação ou eliminação de alimentos.
  • Os sinais de uma PCA devem ser interpretados no contexto da história clínica e do funcionamento global da pessoa. Nenhum comportamento ou indicador isolado permite estabelecer um diagnóstico.

Sinais cognitivos e emocionais

  • Preocupação intensa e persistente com a alimentação, o peso ou a forma corporal.
  • Ansiedade elevada associada às refeições ou a determinados alimentos.
  • Culpa ou sofrimento psicológico intenso após comer.
  • Pensamentos inflexíveis e dicotómicos sobre o que é “permitido” ou “proibido” ingerir.

Sinais sociais

  • Isolamento progressivo, sobretudo em contextos que envolvam alimentação.
  • Evitação de eventos sociais, como refeições em família, jantares com amigos ou celebrações.
  • Alterações nas relações interpessoais e na dinâmica familiar.

Sinais físicos

As consequências físicas variam amplamente consoante o tipo de perturbação e as características individuais. Podem incluir:

  • Alterações nos valores laboratoriais.
  • Perturbações gastrointestinais.
  • Alterações dermatológicas.
  • Da mesma forma, o IMC não deve ser utilizado isoladamente para determinar a existência, gravidade ou necessidade de intervenção numa PCA.

Perante a presença destes sinais, isolados ou em conjunto, a resposta mais adequada é procurar uma avaliação profissional, sem aguardar pelo agravamento do quadro.

Quais são os fatores de risco para o desenvolvimento de perturbações do comportamento alimentar?

A investigação científica identificou múltiplos fatores que podem aumentar a vulnerabilidade ao desenvolvimento de uma PCA. Estes fatores raramente atuam isoladamente, interagindo entre si ao longo do tempo, de forma cumulativa.

Individuais e psicológicos

Determinadas características emocionais, cognitivas e de personalidade estão consistentemente associadas a um risco aumentado, como o perfecionismo, a baixa autoestima, a insatisfação com a imagem corporal, a impulsividade, a inflexibilidade cognitiva e a dificuldade na regulação das emoções.

Biológicos e genéticos

Segundo o estudo «The Genetics of Eating Disorders», a hereditariedade das perturbações alimentares é estimada entre 40% e 60%. Adicionalmente, existe sobreposição genética com outras perturbações mentais, como as perturbações de ansiedade e a perturbação obsessivo-compulsiva.

Algumas linhas de investigação estudam também possíveis relações entre a microbiota intestinal e as perturbações alimentares. Trata-se, no entanto, de uma área emergente, não sendo possível estabelecer uma relação causal simples entre alterações da microbiota e o desenvolvimento de uma PCA.

Familiares e interpessoais

Ter familiares de primeiro grau com histórico de perturbação alimentar aumenta consideravelmente o risco individual.

O contexto relacional, incluindo padrões de comunicação sobre a alimentação e o corpo no seio familiar, bem como determinados acontecimentos marcantes, são igualmente fatores a considerar.

Socioculturais

A pressão exercida pelos ideais corporais vigentes, o estigma associado ao peso e a pressão estética disseminada pelos meios de comunicação são fatores de risco bem documentados.

As perturbações alimentares tendem a ser mais prevalentes em contextos em que a magreza é amplamente valorizada e associada ao sucesso ou à atratividade.

Digitais

O ambiente digital acrescenta uma camada de complexidade crescente.

Uma revisão de 50 estudos, conduzida pela University College London e que abrangeu 17 países, concluiu que a utilização de redes sociais constitui um fator de risco plausível para o desenvolvimento de perturbações alimentares, sobretudo em jovens com preocupações prévias com a imagem corporal, devido à comparação social, à exposição a conteúdos que idealizam determinados padrões físicos e à existência de comunidades online que podem normalizar comportamentos prejudiciais.

Como é avaliado o risco nas perturbações alimentares?

A avaliação de uma PCA deve incluir a identificação de fatores que possam exigir intervenção médica ou psiquiátrica urgente.

Para além da gravidade dos comportamentos alimentares, devem ser considerados indicadores de deterioração física, comportamentos compensatórios, risco suicida, comportamentos autolesivos, consumo de substâncias e outras perturbações psicológicas coexistentes.

A presença de risco significativo pode exigir encaminhamento urgente ou articulação imediata com outros profissionais e serviços de saúde.

Porque são importantes as identificação e intervenção precoces?

As PCA têm um impacto simultâneo nas dimensões psicológica e física, e quanto mais prolongado for o período sem intervenção adequada, maior será a probabilidade de os padrões comportamentais e cognitivos associados se consolidarem, tornando o processo terapêutico mais exigente e a recuperação mais demorada.

O NICE, que publica as diretrizes clínicas de referência internacional para o tratamento das perturbações alimentares, recomenda que as pessoas com estas perturbações sejam avaliadas e recebam tratamento o mais cedo possível.

Perante uma suspeita fundamentada após avaliação inicial, a orientação clínica preconiza o encaminhamento para serviços especializados e não a espera pelo agravamento dos sintomas.

Em Portugal, os dados reforçam esta urgência. Um estudo do CINTESIS (Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde) da Universidade do Porto documentou mais de 4400 internamentos hospitalares por perturbações alimentares em hospitais públicos do continente entre 2000 e 2014, com a taxa de internamento por anorexia nervosa a quase duplicar no período analisado.

Estes dados evidenciam a pressão progressiva sobre os serviços de saúde portugueses e reforçam a importância de intervir antes de se atingir uma fase que exija hospitalização.

Um ponto fundamental: a decisão de procurar ajuda não deve depender de uma autoavaliação da gravidade da situação. Perante sinais preocupantes, a avaliação por um profissional de saúde mental é sempre o passo mais indicado, independentemente da fase em que a perturbação se encontre.

Em Portugal, o portal SNS 24 e a Linha SNS 24 (808 24 24 24) constituem pontos de entrada acessíveis para quem procura orientação ou encaminhamento especializado em saúde mental.

O que deve incluir a avaliação psicológica nas perturbações alimentares?

A avaliação psicológica das perturbações do comportamento alimentar procura compreender não apenas os sintomas presentes, mas também a forma como estes surgiram, são mantidos e afetam diferentes áreas da vida da pessoa.

Entre os elementos que podem ser considerados encontram-se:

  • História e evolução dos sintomas: início, duração, frequência e alterações ao longo do tempo.
  • Comportamento alimentar: padrões de restrição, ingestão compulsiva, evitamento e comportamentos compensatórios.
  • Cognições associadas: crenças relacionadas com alimentação, peso, corpo, controlo e autoestima.
  • Regulação emocional: relação entre emoções, acontecimentos e comportamentos alimentares.
  • Imagem corporal: grau de insatisfação, preocupação ou sobrevalorização do peso e da forma corporal.
  • Funcionamento psicossocial: impacto nos estudos, trabalho, relações e participação social.
  • Comorbilidades: presença de ansiedade, depressão, perturbação obsessivo-compulsiva, trauma, consumo de substâncias ou outros problemas psicológicos.
  • Risco: comportamentos autolesivos, ideação suicida, deterioração física ou outros indicadores que possam exigir intervenção urgente.

Esta informação permite construir uma formulação clínica que ajude a compreender os fatores predisponentes, precipitantes e de manutenção da perturbação e a orientar o plano de intervenção.

Porque é importante a formulação clínica?

A formulação clínica procura explicar como diferentes fatores psicológicos, comportamentais, relacionais e contextuais se articulam num determinado caso.

Ao contrário de uma classificação diagnóstica, que descreve um conjunto de critérios, a formulação procura compreender os mecanismos específicos que podem estar a contribuir para o desenvolvimento e manutenção da perturbação naquela pessoa.

Pode considerar, por exemplo, a relação entre perfecionismo, baixa autoestima, restrição alimentar, preocupação corporal, acontecimentos de vida, estratégias de regulação emocional e comportamentos compensatórios.

Esta compreensão ajuda o psicólogo a definir prioridades e objetivos terapêuticos individualizados.

Quais são as principais estratégias de intervenção nas perturbações do comportamento alimentar?

A intervenção nas perturbações alimentares é necessariamente multidimensional. Com base nas principais diretrizes internacionais, incluindo a NICE NG69. Podem identificar-se seis componentes fundamentais da intervenção:

1. Avaliação clínica abrangente

A avaliação inicial não se limita ao comportamento alimentar. Engloba a saúde física, o funcionamento psicológico, o contexto social e familiar, os fatores de risco, as condições coexistentes (como perturbações de ansiedade ou depressão, frequentemente associadas às PCA) e o histórico clínico.

Esta avaliação é a base para um plano de intervenção adequado a cada pessoa. Não existem protocolos únicos aplicáveis a todos os casos.

2. Intervenção psicológica baseada em evidência

Diferentes abordagens psicológicas são recomendadas pelas diretrizes internacionais, consoante o diagnóstico e as características individuais.

As recomendações variam conforme diagnóstico, idade e apresentação clínica. Por exemplo, no NICE:

  • Anorexia nervosa em adultos: CBT-ED, MANTRA ou SSCM podem ser consideradas-
  • Bulimia nervosa: CBT-ED tem um papel importante.
  • Binge eating disorder: existem intervenções específicas, incluindo guided self-help e CBT-ED conforme a situação-
  • Crianças e adolescentes: as abordagens familiares têm especial relevância.

A escolha da intervenção psicológica depende do diagnóstico, da idade, da gravidade, das condições coexistentes e das características individuais.

Em crianças e adolescentes com anorexia nervosa, as intervenções familiares focadas na perturbação, incluindo abordagens desenvolvidas a partir do modelo de Maudsley, assumem particular relevância nas recomendações clínicas.

Outras abordagens integram igualmente o espectro de intervenções utilizadas e estudadas nesta área. Entre as intervenções recomendadas para quadros específicos encontram-se o MANTRA (Maudsley Model of Anorexia Nervosa Treatment for Adults), com evidência crescente para situações em que a desregulação emocional é central, ou o SSCM (Specialist Supportive Clinical Management). A terapia comportamental dialética (DBT) tem também sido estudada, particularmente em situações em que a desregulação emocional assume relevância clínica

3. Psicoeducação

A psicoeducação é o processo pelo qual a pessoa e, frequentemente, os seus familiares, desenvolvem uma compreensão aprofundada da perturbação, dos seus mecanismos e do processo terapêutico.

Compreender o que acontece e porquê não é um prelúdio à mudança, mas uma parte integrante da mesma.

4. Intervenção familiar

O envolvimento da família ou dos cuidadores é particularmente relevante em crianças e adolescentes, bem como em determinadas situações clínicas.

A família pode integrar o processo terapêutico de forma construtiva e ativa, sem ser responsabilizada pela origem da perturbação, mas sim como um recurso essencial para a recuperação.

5. Acompanhamento nutricional e médico

Determinadas perturbações alimentares acarretam consequências físicas significativas.

A intervenção psicológica não substitui a avaliação e o acompanhamento médico e nutricional quando estes são clinicamente necessários, sendo recomendável que decorram em articulação com a intervenção psicológica, no âmbito de uma equipa multidisciplinar.

6. Monitorização e prevenção de recaída

A recuperação não se resume ao desaparecimento imediato de determinados comportamentos.

Pelo contrário, envolve o acompanhamento da evolução ao longo do tempo, a consolidação dos ganhos terapêuticos e o desenvolvimento de competências que reduzam o risco de recaída.

Este processo pode requerer acompanhamento prolongado para além da fase aguda.

Qual é o papel do psicólogo na intervenção em perturbações do comportamento alimentar?

O psicólogo com formação adequada na área pode desempenhar um papel fundamental na avaliação e intervenção psicológicas nas perturbações alimentares, trabalhando de forma articulada com outros profissionais quando o quadro clínico o exige.

O seu trabalho organiza-se em torno de um conjunto de funções articuladas e interdependentes:

  • Avaliação psicológica e formulação do caso clínico: recolha sistemática de informação sobre os padrões comportamentais, emocionais e cognitivos e construção de uma formulação que oriente a intervenção de forma coerente e contextualizada.
  • Definição de objetivos terapêuticos: em conjunto com a pessoa, tendo em conta o diagnóstico, as características individuais e os recursos disponíveis.
  • Intervenção psicológica: implementação de abordagens terapêuticas adequadas, num processo adaptativo e contínuo, ancorado na evidência científica.
  • Acompanhamento e avaliação dos resultados: monitorização regular da evolução clínica e ajuste do plano de intervenção quando necessário.
  • Prevenção de recaída: desenvolvimento de competências que permitam à pessoa identificar e gerir, de forma progressivamente autónoma, situações de risco futuras.
  • Articulação com outros profissionais: coordenação com médicos, nutricionistas, psiquiatras e outros membros da equipa de saúde, garantindo a coerência e a continuidade do cuidado.

Além das funções específicas, o trabalho do psicólogo requer as seguintes competências:

  • Escuta clínica ativa.
  • Capacidade de estabelecer uma relação terapêutica sólida.
  • Conhecimento aprofundado de psicopatologia.
  • Prática baseada na evidência.
  • Comunicação clara com a pessoa e a sua família.
  • Ética profissional.
  • Aptidão para o trabalho interdisciplinar.

Qual é o papel da equipa multidisciplinar nas perturbações alimentares?

Dado o impacto simultâneo das perturbações alimentares nas dimensões física, psicológica e social, o tratamento mais eficaz é aquele que envolve uma equipa de profissionais com competências complementares e verdadeiramente articuladas:

  • Psicologia: avaliação e intervenção psicológicas, gestão emocional, reestruturação cognitiva e prevenção de recaída.
  • Medicina: avaliação e acompanhamento da saúde física e monitorização das consequências orgânicas da perturbação.
  • Nutrição: avaliação e intervenção nutricional especializada e reestruturação progressiva dos padrões alimentares.
  • Psiquiatria: avaliação psiquiátrica e intervenção farmacológica quando clinicamente indicada.
  • Outros profissionais: assistentes sociais, terapeutas ocupacionais ou enfermeiros de saúde mental podem integrar a equipa consoante as necessidades específicas de cada caso.

A abordagem multidisciplinar não se limita à coexistência de diferentes especialistas: implica uma intervenção coordenada, comunicativa e centrada nas necessidades e no percurso específico de cada pessoa em tratamento.

E qual o papel da Psicologia na prevenção das perturbações alimentares?

A Psicologia pode contribuir para a prevenção das PCA através de intervenções dirigidas aos fatores psicológicos e socioculturais associados ao risco, particularmente em contextos escolares, comunitários e de saúde.

Entre as áreas relevantes encontram-se:

  • Literacia sobre saúde mental e comportamento alimentar: melhorar a capacidade de reconhecer sinais e procurar ajuda adequada.
  • Imagem corporal: desenvolver uma relação mais crítica com padrões corporais idealizados e reduzir a sobrevalorização do peso e da aparência.
  • Literacia mediática: trabalhar a comparação social e a interpretação crítica dos conteúdos difundidos nas redes sociais.
  • Regulação emocional: desenvolver estratégias adaptativas para lidar com emoções e acontecimentos adversos.
  • Redução do estigma: evitar discursos que reforcem preconceitos relacionados com peso, alimentação ou perturbações mentais.
  • Identificação precoce: capacitar profissionais e comunidades para reconhecer sinais que justifiquem avaliação especializada.

Como se previnem as perturbações do comportamento alimentar?

Prevenir as perturbações alimentares implica atuar em diferentes frentes:

Literacia em saúde mental

Promover o conhecimento sobre o que são as PCA, os seus determinantes e os recursos disponíveis reduz o estigma, favorece a identificação precoce e facilita a procura de ajuda por parte de quem experiencia dificuldades ou reconhece sinais em alguém próximo.

Literacia mediática e pensamento crítico

Desenvolver a capacidade de analisar criticamente os padrões corporais promovidos pelos meios de comunicação e pelas redes sociais (e de reconhecer os seus efeitos na forma como nos percecionamos) é uma competência protetora, sobretudo entre adolescentes e jovens adultos.

Combate ao estigma

O estigma associado ao peso e às perturbações alimentares constitui um obstáculo real ao tratamento.

Uma comunicação responsável sobre alimentação, peso e corpo em contextos escolares, familiares, mediáticos e clínicos contribui para um ambiente mais seguro para quem enfrenta estas dificuldades.

Identificação precoce de sinais de sofrimento

Capacitar as famílias, os professores, os profissionais de saúde e a comunidade em geral para reconhecerem sinais de alerta e saberem como agir permite reduzir o intervalo entre o início dos sintomas e o acesso ao tratamento.

Como podes estudar Psicologia Clínica e aprender a intervir na saúde mental

Se queres tornar-te psicólogo e intervir nesta área, a Universidade Europeia tem uma oferta formativa completa para cada fase do percurso:

Para explorares toda a oferta formativa disponível, podes consultar o catálogo completo de cursos de Psicologia da Universidade Europeia.

Em Portugal, o exercício autónomo da Psicologia exige um percurso académico e profissional específico.

De forma geral, a formação académica em Psicologia inclui um primeiro ciclo e um segundo ciclo de estudos na área. Após a conclusão da formação académica necessária, o acesso ao exercício profissional implica ainda o cumprimento dos requisitos estabelecidos pela Ordem dos Psicólogos Portugueses, incluindo o Ano Profissional Júnior para a passagem a membro efetivo.

Para quem pretende trabalhar especificamente na área clínica e da saúde, a formação contínua, a supervisão e o desenvolvimento de competências em avaliação, psicopatologia e intervenção baseada na evidência assumem particular importância.

As perturbações do comportamento alimentar são um exemplo de área em que a complexidade clínica exige preparação especializada e capacidade de trabalhar de forma interdisciplinar.

Perguntas frequentes sobre perturbações do comportamento alimentar

A avaliação psicológica pode contribuir para a identificação e compreensão de uma perturbação do comportamento alimentar, através da análise dos sintomas, do funcionamento psicológico, da história clínica e dos fatores que mantêm o problema. A avaliação deve ser realizada por profissionais qualificados e, diante de consequências físicas ou outras necessidades clínicas, articulada com profissionais de outras áreas da saúde.

O rastreio procura identificar sinais que possam justificar uma avaliação mais aprofundada. A avaliação clínica é mais abrangente e considera, entre outros aspetos, sintomas, comportamentos alimentares, cognições, emoções, funcionamento psicossocial, comorbilidades, fatores de risco e história do problema.

Podem ser utilizados questionários, entrevistas clínicas e outros instrumentos de avaliação psicológica adequados ao objetivo e à população. O SCOFF, por exemplo, é um questionário breve de rastreio composto por cinco perguntas. Estes instrumentos fornecem informação complementar, mas não devem ser utilizados isoladamente para estabelecer um diagnóstico.

Sim. O peso corporal, por si só, não permite confirmar nem excluir uma perturbação do comportamento alimentar. Algumas PCA podem ocorrer em pessoas com diferentes pesos e composições corporais, pelo que a avaliação deve considerar o conjunto dos sintomas e do funcionamento da pessoa.

As PCA podem coexistir com outras dificuldades ou perturbações psicológicas, incluindo depressão, perturbações de ansiedade e perturbação obsessivo-compulsiva. A avaliação deve também considerar comportamentos autolesivos, risco suicida, consumo de substâncias e outras condições relevantes para o caso.

A formulação clínica ajuda a compreender como diferentes fatores podem ter contribuído para o aparecimento e manutenção do problema numa pessoa específica. Pode integrar aspetos como perfecionismo, autoestima, imagem corporal, regulação emocional, relações interpessoais e padrões de comportamento alimentar, orientando a definição dos objetivos terapêuticos.

O encaminhamento deve ser considerado quando existem sinais de comprometimento da saúde física, alterações clínicas relevantes ou outras situações que necessitem de avaliação médica. Nas PCA, a articulação entre Psicologia, Medicina, Nutrição e, quando necessário, Psiquiatria pode ser fundamental para uma intervenção segura e integrada.